domingo, 6 de setembro de 2009

Televisão de cachorro

Enchentes, baleias em extinção, buraco na camada de ozônio, impostos, Sarney, menina Isabella, Eloá e Lindemberg, Vanusa cantando o Hino Nacional, enfim.

Nada me deixa tão sensibilizado quanto os alérgicos a camarão.

Na maioria das vezes, os alérgicos gostam do alimento e não podem desfrutar desse desbunde. Nem empanado, nem frito, nem misturado no bobó, nem no yakissoba, nem em forma de salgadinhos. Para eles, porção de camarões na mesa e cardápio de restaurante de frutos do mar não passam de uma televisão de cachorro. Eles veem, sentem o cheiro, sabem o quanto é bom, invejam a todos que estão se lambuzando, salivam, mas ficam na vontade.

O camarão sempre faz parte das melhores culinárias e dos mais elaborados pratos. Surgem, então, as situações mais constrangedoras. Eu imagino o namorado alérgico indo almoçar na casa da namorada pela primeira vez. O cardápio? Bobó de camarão. A situação começa a ficar embaraçosa ao servir o prato. Ele pode abrir o jogo e chatear a sogra, que passou o dia bolando um prato delicioso para recebê-lo, ou arriscar a sorte, rezar, comer e achar que a alergia vai esquecer de dar as caras. Separar disfarçadamente os camarões do restante do prato e depois desová-los para o cão pode ser muito perigoso e digno de uma cena de filme de comédia barata. Se algum dia uma situação semelhante acontecer com você, aja com sinceridade e peça um Miojo. A alergia não é desatenta e você vai parar no hospital com a garganta parecendo um pão sovado e o rosto mais vermelho que um peru.

O que me deixa triste é que não existe cura para esse mal. O tratamento consiste em afastar o alimento do cardápio do indivíduo. Ou seja, fadá-lo a nunca comer camarão. Nascer com esse incoveniente é um verdadeiro deboche da natureza. Não é possível que existam tantos alimentos e ser premiado justamente com alergia a camarão. Veja só como soa menos doloroso: alergia a berinjela, espinafre, pepino, couve-flor, pimentão...

As organizações-não-governamentais deveriam passar a assistir essa demanda da população, incluindo socialmente os alérgicos a camarão. Palestras, workshops, reuniões (Alérgicos a Camarões Anônimos), reduzirião a sensação de desprezo e diminuição dos prejudicados.

E quanto a solução definitiva do problema, eu não sei o que estão esperando para estudar a fundo esse tratamento. Profissionais da medicina, aproveitem o embalo da H1N1 e encontrem a cura dessa maldita alergia que traz tanto sofrimento às suas vítimas.

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