quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Tomara que ele não tenha percebido.

Hoje de manhã, estava no ponto de ônibus da Consolação esperando o Terminal Santo Amaro 669-A, que me transporta do Mackenzie ao trabalho diariamente.

Reparei em um trio muito incomum. Um jovem casal, visivelmente alunos do Mackenzie, e o terceiro elemento, que me deixou confuso. Aparentava ser um morador de rua, com roupas rasgadas, tênis muito velho e bebia uma garrafa de vinho barato, sem rótulo, no gargalo. Tinha cabelo black-power, que parecia não ser lavado há um bom tempo, fisionomia embriagada, e falava sem parar, gesticulando, prendendo a atenção dos dois estudantes entretidos.

Chegou o meu ônibus e, para a minha surpresa, era o dele também, ou o que ele decidiu pegar no momento. Sentei. Ele passou por baixo da catraca e sentou-se no banco da frente do meu. Virou para trás e começou a puxar assunto.

Não entendia direito o que ele falava, por conta de sua embriaguez. Ele não era daqueles malucos que falam coisas sem sentido, no entanto, eu só conseguia sentir o cheiro do vinho barato. Procurei prestar atenção. Ele dizia que lá embaixo (descendo a Consolação, estão os cantos da Praça Roosevelt, República, Anhangabaú) sofria muita discriminação. Parece que os outros moradores de rua, o chamam de ladrão. “A minha vontade é de matar todos que falam assim de mim. São todos invejosos”, dizia entre uma golada no vinho e outra. Ele estava irritado, mas me tratava muito bem. Sua fúria era com a vida. Eu, sem saber o que falar, pedia pra ele ficar tranquilo, manter a calma e não dar ouvidos para essas pessoas. Falei mecanicamente, sabendo que ele não iria seguir esses conselhos.

Depois, ele me perguntou se eu estudava no Mackenzie. Respondi que sim. Então ele me disse, de modo calmo e sereno, que eu nunca entenderia o que ele sente por conta disso. Deu mais um gole no vinho e continuou: “eu também sou alemão, não tá vendo?” – rindo e apontando para seu rosto negro.

Comecei a me incomodar com suas suposições a meu respeito. Eu queria conversar um pouco mais com ele, mas senti receio. E se ele começasse a se revoltar contra mim?

Decidi, portanto, interromper a conversa. Me despedi, dizendo que foi um prazer e pedi para ele seguir a vida com calma, que tudo daria certo. Senti remorso e arrependimento. Ele ainda devia ter muito para me contar, e eu, muito para ouvir. Não queria ter dado as costas para ele, milhares de pessoas já devem ter feito isso. Afinal, em nenhum momento o cara se mostrou agressivo ou perigoso. Pelo contrário, era amigável, e acredito que estava apenas procurando alguém para conversar. Ou pelo menos que lhe desse ouvidos. Com certeza, os dois jovens que conversavam com ele no ponto, fizeram isso melhor do que eu.

Mas a verdade dele tentando decifrar a minha verdade me incomodou bastante, a ponto de me fazer descer, antes mesmo da Paulista, e esperar pelo próximo Terminal Santo Amaro 669-A.


Tomara que ele não tenha percebido.

8 comentários:

Ed disse...

Saudades das suas postagens! Fazia tempo! =D

Maria Bernadete disse...

é alemão...a rua as vezes trasmites menssagens pra gente!!!

Van disse...

...Ahhhh postagem nova adoro!!.. e que coração Doug..eu me senti envergonhada agora...certeza que seria mais uma a virar as costas!!...

Paulo disse...

como sempre sensacional!

Bianca Mezher disse...

FAN-TAS-TI-CO!

Do, que texto maravilhoso!

Delicioso de ler.

Engraçado, sincero, com sentimento, inteligente, com compaixão e um fundinho de amor pela humanidade!

Simplesmente ótimo!

Vc deveria escrever um livro! Juro que se vc escrever quero ser uma das primeiras a ler!

Parabéns querido!!!

“Mas a verdade dele tentando decifrar a minha verdade me incomodou bastante”. LINDO! E poético

Aline Pinho disse...

Olha só...eu sempre soube da sua vocação! parabéns, doug!
bjos

Fernanda Teixeira disse...

Douglas, você não deve se arrepender de sua atitude. Deu papo para o cara, estebeleceu um diálogo, uma conversa. Quando não estava mais interessado em continuar, simplesmente cortou. Houve uma troca. Fique tranquilo, acho que faria o mesmo. E parabéns! Continuo gostando bastante da maneira como escreve.
beijo!

Bravo disse...

Vc tá mandando muito bem, heim, querido!