A feira livre é o lugar mais alto-astral que já conheci. Ganha de baladas e festas, onde sempre têm alguns bêbados arrumando confusão. Na feira não. Todo mundo que está lá sorri, conversa, gargalha, grita! É praticamente uma confraternização. Todos tratam-se bem: “Fala gente boa, fala alemão, ô meu amigo”.
E para as mulheres, então, só elogios de ‘moça linda’ para cima! Não é a toa que é um grande passeio para donas de casas desiludidas. Lá elas são bem tratadas, coisa que os maridos não fazem há um bom tempo.
E não são apenas os feirantes que são felizes. As pessoas andam para lá e para cá com seus carrinhos e sacolas, distribuindo sorrisos. O som alto que vem da banca de CD's e DVD's piratas acompanha a animação.
Mais felizes ainda, são os que aproveitam para degustar o tradicional pastel de feira com caldo-de-cana. Com direito a copo e canudo reutilizados e àquele catchup embolorado na ponta da bisnaga, pessoas de todas as idades se fartam. Para quem preferir, tem vinagrete anti-higiene com repolho. Se não for na feira, você nunca vai comer vinagrete com repolho.
Depois de comprar couve, batata, mandioca, beterraba, rabanete, coco ralado e experimentar manga, abacaxi, uva e morango com a promessa de que aqueles eram os melhores da região, cheguei ao final da feira.
Lá, na banca de limões, um rapaz que só tinha dois dentes estava todo embaraçado pegando dinheiro, arrumando sacola, e ainda paparicando e brincando com toda a clientela. Eu estava esperando para pedir meus limões e ele começou a falar sem parar. Dizia que cobria qualquer oferta, que a banca dele era a melhor e que os limões dele eram os mais baratos!
“Aqui só falta um ajudante para organizar essas caixas, pra ficar perfeito", disse ele.
Opa! Como assim? Eu quase joguei meu currículo na banca dele! Estava tão contagiado com a alegria da feira que não imaginei lugar melhor para se trabalhar do que lá. Afinal, eu não vejo o meu pai tão alto-astral no ambiente de trabalho há um bom tempo. E ele tem todos os dentes na boca e mais de um ajudante.
Li uma reportagem na Revista Época, ontem mesmo, sobre as 100 melhores empresas para trabalhar. E, poxa vida, nem citaram a feira da Vila Formosa! Duvido que nos melhores escritórios, com ambientes descontraídos, coffee breaks, chefes humildes, inúmeras regalias, tenha tanta gente de bem com a vida quanto lá!
