terça-feira, 22 de setembro de 2009

Acidentes acadêmicos

Vejo a minha graduação encaminhando-se para a reta final. Já comecei a fazer meu TCC e só agora posso fazer parte do clichê: ‘Passa muito rápido’. Ainda tenho muita coisa para absorver e muita gente para conhecer, mas tenho a prévia certeza de que aproveitei muito. E para mim, a sessão nostalgia já começou!

Há um tempo, marcamos uma balada com o pessoal para nos despedir de um querido amigo que iria (foi) fazer intercâmbio por alguns meses no Canadá. O famoso ‘esquenta’ rolou solto e eu, confesso, exagerei nas doses. Entramos na balada e a turma inteira estava alterada, calibrando os copos além do limite. Era bebida no ar, gente no chão, pulando, fazendo montinho. Um comportamento digno de berçário na noite paulistana.

Entre bagunças e tombos, que a minha memória não permite detalhar, saí mancando da balada, crente que havia dado um simples mau jeito na perna. Minha amiga me trouxe em casa, mas às 7h30 da manhã eu já estava cansado da noitada e sem condições de tomar banho. Apenas coloquei um pijama e caí na cama daquele jeito, completamente sujo.

Despertei às 10h com a maior dor da minha vida. Meu tornozelo parecia um pão gigante sovado, inchado e roxo. Não conseguia me virar na cama e estava com uma vontade insuportável de fazer xixi. Qualquer movimento, via estrelas. E entre uma fisgada e outra na perna, minha cabeça dava pontadas e eu sentia ânsia de vômito. Gritei por alguém, liguei do meu celular para minha própria casa, mas ninguém atendeu. Estava sozinho, preso no meu quarto, praticamente atropelado, em uma das maiores ciladas da minha vida.

Sem recurso para ir ao banheiro e nenhuma posição em que minha dor não era insuportável, entrei em desespero e cheguei a chorar.
Apelei para uma cadeira de rodinhas, daquelas do computador, em frente a minha cama. Com o maior sacrifício da vida a puxei, sentei e fui até o banheiro para aliviar a vontade de fazer xixi. Circulando com meu automóvel improvisado pela casa, liguei para o meu pai. Levei cerca de meia hora para fazer esse trajeto, que foi um verdadeiro transtorno e constrangimento.

Chegamos ao hospital, fiquei andando de cadeira de rodas, agora verdadeira, cheirando a bebida, cigarro e confusão, com olheiras, dor de cabeça e ânsia de vômito. Tirei algumas chapas e o médico, intrigado, perguntava como foi que havia me machucado, e eu não sabia responder. Dizia que estava dançando, torci o pé e na hora nem percebi. Mas ele retrucava: ‘Não é possível. Temos luxações por todos os lados, não pode ter sido apenas uma torção’. Como ele queria que eu me justificasse na frente do meu pai? Dizendo que fiquei maluco, alucicrazy na festa e caí no chão diversas vezes porque eu e meus amigos temos atitudes piores que crianças de 10 anos?

Por fim, não quebrei a perna. Apenas luxei o tornozelo em diversas regiões, engessei e fiquei apenas uma semana e meia de molho.

Nesse dia prometi nunca mais fazer esse tipo de coisa.
Exatamente um ano depois eu abri o supercílio, mas isso é história para outro post. Ou quem sabe, um complemento para meu TCC.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Balas ruins


Ontem no metrô, uma mulher, com toda a ignorância da atmosfera, me empurrou. Fiquei reparando na cara dela e em como ela era chata. O rosto, o cabelo, o jeito, a jaqueta... Nada se salvava.

Ela era tão chata, que ficou emburrada durante todas as estações e eu fiquei encarando. Tenho mesmo esse defeito. Quando eu encasqueto com alguma coisa, eu não consigo parar de olhar. Chega a ser desagradável.

De repente ouço um barulhinho de papel de bala abrindo e olhei para trás. Ela colocou a bala na boca com tanta má vontade que parecia que era sabor rúcula com abóbora. Meu Deus, quanta chatice! Até franzi a testa e ela balbuciou as seguintes sílabas: ‘Num sei qui ta oiãnu’.
Tudo bem, confesso que devo ter encarado demais, mas poxa, eu só estava reparando.

Era horário de rush, o metrô estava lotado e nada confortável para nenhum de nós. Mas se esse trajeto for o cotidiano dela, é melhor se acostumar. Eu, por exemplo, coloco músicas engraçadas no MP3, tipo Macarena. Não dá para ficar nervoso durante o apocalipse do transporte ouvindo: êeeee macarena, a-hai!

Depois, eu fiquei pensando no quanto aquela moça seria improdutiva no trabalho, estúpida com seus amigos e péssima companhia na volta para casa. Se às 7 da manhã ela já estava terminantemente aloprada, imaginem depois de um longo dia de trabalho. Minha vontade era de ligar para seus filhos, pais, esposo e dizer: ‘Cuidado com a chata! Hoje ela está com a macaca’.

Claro que respeito a opinião de quem achar que o chato da história fui eu, que encarei a moça o trajeto todo.
A verdade é que existe, sim, muita gente legal, prestativa e engraçada por aí.
Mas o mundo está cheio mesmo é de gente chata, ou de balas ruins.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Desconfiança

Eu não confio em quem deixa passar um cãozinho abanando o rabo despercebido, não fica feliz ao ver o Sol, nunca demonstra que está de bom humor, acha irresponsável chorar de rir diante de um problema irredutível, critica quem toca a campainha e sai correndo aos 21 anos ou nunca tenha ultrapassado os limites em uma festa.

Eu desconfio dessas pessoas que não sabem sorrir para a vida.
Elas nunca vão sorrir para mim.


domingo, 6 de setembro de 2009

Televisão de cachorro

Enchentes, baleias em extinção, buraco na camada de ozônio, impostos, Sarney, menina Isabella, Eloá e Lindemberg, Vanusa cantando o Hino Nacional, enfim.

Nada me deixa tão sensibilizado quanto os alérgicos a camarão.

Na maioria das vezes, os alérgicos gostam do alimento e não podem desfrutar desse desbunde. Nem empanado, nem frito, nem misturado no bobó, nem no yakissoba, nem em forma de salgadinhos. Para eles, porção de camarões na mesa e cardápio de restaurante de frutos do mar não passam de uma televisão de cachorro. Eles veem, sentem o cheiro, sabem o quanto é bom, invejam a todos que estão se lambuzando, salivam, mas ficam na vontade.

O camarão sempre faz parte das melhores culinárias e dos mais elaborados pratos. Surgem, então, as situações mais constrangedoras. Eu imagino o namorado alérgico indo almoçar na casa da namorada pela primeira vez. O cardápio? Bobó de camarão. A situação começa a ficar embaraçosa ao servir o prato. Ele pode abrir o jogo e chatear a sogra, que passou o dia bolando um prato delicioso para recebê-lo, ou arriscar a sorte, rezar, comer e achar que a alergia vai esquecer de dar as caras. Separar disfarçadamente os camarões do restante do prato e depois desová-los para o cão pode ser muito perigoso e digno de uma cena de filme de comédia barata. Se algum dia uma situação semelhante acontecer com você, aja com sinceridade e peça um Miojo. A alergia não é desatenta e você vai parar no hospital com a garganta parecendo um pão sovado e o rosto mais vermelho que um peru.

O que me deixa triste é que não existe cura para esse mal. O tratamento consiste em afastar o alimento do cardápio do indivíduo. Ou seja, fadá-lo a nunca comer camarão. Nascer com esse incoveniente é um verdadeiro deboche da natureza. Não é possível que existam tantos alimentos e ser premiado justamente com alergia a camarão. Veja só como soa menos doloroso: alergia a berinjela, espinafre, pepino, couve-flor, pimentão...

As organizações-não-governamentais deveriam passar a assistir essa demanda da população, incluindo socialmente os alérgicos a camarão. Palestras, workshops, reuniões (Alérgicos a Camarões Anônimos), reduzirião a sensação de desprezo e diminuição dos prejudicados.

E quanto a solução definitiva do problema, eu não sei o que estão esperando para estudar a fundo esse tratamento. Profissionais da medicina, aproveitem o embalo da H1N1 e encontrem a cura dessa maldita alergia que traz tanto sofrimento às suas vítimas.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Desabafo de um desempregado

Você abre sua caixa de entrada e lê: ‘Convocação para Processo Seletivo’. Parabéns, você foi selecionado. A partir de agora, você será analisado com mais 1000 candidatos e estarão concorrendo a uma vaga de estágio.

O desconforto começa quando você não sabe como ir trajado a uma dinâmica de grupo. Dá medo de ir de roupa social e ser o único banana da turma ou ir mais despojado e ser o único nonsense.

Chegando lá, ninguém é transparente. Ou vocês já ouviram alguém dizer assim: ‘Olha, trabalhar aqui não é bem o que eu procuro. Mas como estou numa fase topo-tudo-por-dinheiro-oê, eu vim tentar. Depois, se arrumar algo melhor, vocês entram com a bunda e eu com o pé’.?

Então começa o espetáculo de quem mente mais.

Na apresentação da empresa, ela é sempre líder de mercado, paga bem e valoriza os funcionários, oferecendo construção de carreira sólida. Além disso, é sempre uma verdadeira escola, apesar de eliminar candidatos sem experiência profissional.

Depois é a vez da supervalorização do candidato com o famoso (falso) marketing pessoal. Sempre esforçado, tem muita responsabilidade e compromisso. É o funcionário perfeito. Embora tenha sido demitido por justa-causa na empresa anterior por ter agredido fisicamente sua colega de trabalho, ele tem espírito de equipe e adora trabalhar sob pressão.

Todo candidato, também, sempre sonhou em fazer parte daquela empresa. Mentira. Enviou o currículo, junto com mais 10, por acaso. Quando recebeu o convite para o processo seletivo jogou o nome no Google e leu as principais manchetes para parecer informado.

Na entrevista em inglês, o recrutador descobre que a fluência no idioma dos candidatos não passa de duas semanas de aulas no CCAA em 1996.

Em uma seleção, você pode perder a vaga por qualquer detalhe. Cruzar os braços, sentar em cima da perna, segurar um bocejo enquanto o recrutador palestra. Uma vez, enquanto contava as minhas experiências profissionais, cruzei a perna. A recrutadora fez uma anotação na hora. Será que aquela empresa não queria um candidato que cruzasse a perna?

Acabou todo o apuro? Parabéns! Você foi contratado. Eliminou 1000 concorrentes, passou por quatro etapas e agora é estagiário de uma multinacional.
Não mentiu, não omitiu e tem um currículo de dar inveja. Tudo estaria perfeito se a sua função passasse de grampear relatórios.

A diarista que trabalhava aqui em casa fez seleção em uma empresa terceirizada. Ela ganharia mais e trabalharia menos, com carteira assinada e todos os benefícios. Isso se ela tivesse noções básicas de inglês. Claro. Pega muito mal quando a moça da limpeza não sabe o nome da Broom, não é mesmo?

Com a grande procura, as empresas estão exigindo super-homens ao invés de pessoas. Elas querem referência, viagens, estudos, experiência, línguas, cursos extracurriculares para atuar em um cargo que só precisa de boa vontade e concentração, que a minha ex-diarista tem para dar e vender. Por isso, para preencher uma vaga de emprego, eu defendo a boa e velha entrevista individual em que seja levado em consideração o que realmente é necessário para o desempenho na função e a afinidade entre o entrevistado e entrevistador, ou o suposto chefe.

E para as empresas que pesquisam a vida do candidato na internet e por algum acaso caírem aqui, saibam: eu vou para todas as festas da faculdade, viajo sempre que possível, gosto muito de me divertir e vivo dando risada. E, acreditem, isso não fará de mim um profissional com menor rendimento e qualidade.


Enquanto as empresas não encontram nosso potencial, nós, desempregados, vamos dançando conforme a música.