quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Não faça lista de realizações. Ela pode te apontar o dedo e rir daqui a um ano.

Muito obrigado a todos vocês, que participaram positivamente do meu ano de 2009.
Sintam-se a vontade para bagunçar meu 2010.
E que nossa única preocupação, a partir de hoje, seja o Carnaval.
Um brinde às pessoas felizes do mundo!


Feliz Ano Novo!

domingo, 20 de dezembro de 2009

Breque, na verdade, chama Black

É que lá em Iacanga - cidade de 10 mil habitantes no interior de SP, onde foi criado - a dona não conseguia pronunciar seu nome.

Breque era um cãozinho cheio de carrapatos, magro, agressivo e tinha aparência de cão doente. Na sua cabeça, havia um buraco fundo, infeccionado, que se abriu enquanto apanhava de seu antigo dono. Ele batia no Breque com uma tábua com um prego na ponta. E também com correntes de fechar portão.

Depois, Breque foi acudido por uma moça de bom coração, mas sem condições de dar a ele tudo que precisava. Breque se livrou dos maus tratos, mas continuava na rua procurando por comida, e machucado, porque nunca havia visitado um veterinário.

É aí que surge a Gabriela Dias, que atualmente mora em SP, mas tem suas raízes nessa cidadezinha do interior. Apaixonada por animais, pediu a guarda do Breque para essa moça de bom coração, que cedeu na hora. Breque veio morar em SP com Gabriela. Agora, no lugar de carrapatos, fome e ferimentos, ganhou uma casa grande, carinho e todos os cuidados necessários. Abana o rabo e pula em cima de todas as visitas. Depois de tanto sofrimento, descobriu que ser um cachorro é muito melhor do que imaginava.

Breque é feliz. E eu também sou feliz, por saber que existem pessoas como ela:




Parabéns, Gabi.
O mundo precisa de mais exemplos seus.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Suicidas inconvenientes

Hoje certamente teve algum problema extra no Metrô. Às 10h da manhã, os trens ainda andavam em doses homeopáticas, com super lotação. Já me preparei para ouvir aquela voz chata: “Por motivo de usuário na linha, os trens estão circulando com velocidade reduzida."

Não foi o que aconteceu hoje, mas quem usa o Metrô sabe o quanto isso é corriqueiro. Só não sabemos o que, realmente, é comum: ter usuário na linha ou o Metrô nos dar essa desculpa. No fundo, acredito que isso seja uma grande mentira que tenta justificar o péssimo serviço prestado à população.

Eu uso o Metrô há quatro anos, mais de uma vez por dia, e nunca vi ninguém nos trilhos. Também não conheço ninguém que tenha visto. Mas, se acontecer, acredito que os trens devam parar no ato e, depois de 5 minutinhos, voltar a funcionar normalmente. Seria o tempo de arrancar a pessoa do trilho e colocá-la em terra firme. Pronto.

Isso realmente acontece algumas vezes, mas em sua maioria, o trem anda com aquela lentidão, avisando sobre o suposto usuário na linha por um bom tempo. Ou seja, o trem passa por cima da pessoa aos pouquinhos e a equipe de segurança não consegue retirá-la de uma vez? Às vezes estou na estação Tatuapé e ouço dizer que tem gente na linha. O trem continua fazendo o percurso lentamente até a Barra Funda. Passam-se 10 estações, meia hora, e o infeliz continua no trilho? Não, não é possível.

Eles [o Metrô] devem achar que a população tende a ficar sensibilizada com essa justificativa. Sensibilizado ninguém fica. Ficamos conformados, pois já nos acostumamos com esse discurso. O burburinho causado por uma explicação do gênero: “Por motivo de incompetência e super lotação, vocês vão continuar aí por um bom tempo, ok?”, seria deveras massacrante.

Agora, se a quantidade de usuários na linha for real e minha teoria não passar de uma ignorância no assunto metroviário, decididamente não sou capaz de entender: O depressivo quer se suicidar? Ok. Leila Lopes, Chatterton, Getúlio Vargas, Carlota Joaquina e Santos Dumont também quiseram. E nem por isso atrapalharam tanta gente. Nem o Hitler, que era o Hitler, atrapalhou. É muita pretensão o Zé da Liberdade, a Maria do Brás ou o João da Barra Funda atrasarem milhões de pessoas por seus caprichos.

É melhor o Metrô começar a explorar um outro lado, dizendo que a pessoa foi empurrada, se desequilibrou ou qualquer coisa que afirme que ela esteja contra a vontade nos trilhos. A maneira como eles falam é muito fria para informar sobre quem está correndo risco de morte. E, pena mesmo, os demais passageiros só vão sentir se souberem que a vítima foi sacaneada. O discurso deveria ser atualizado para: “Lutando até o último segundo, passageiro não resistiu e foi brutalmente empurrado para o trilho. Para tentar salvá-lo, reduziremos a velocidade dos trens. Espero que você entenda.”

A comoção seria geral e a vítima, poupada de tantos insultos.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Tomara que ele não tenha percebido.

Hoje de manhã, estava no ponto de ônibus da Consolação esperando o Terminal Santo Amaro 669-A, que me transporta do Mackenzie ao trabalho diariamente.

Reparei em um trio muito incomum. Um jovem casal, visivelmente alunos do Mackenzie, e o terceiro elemento, que me deixou confuso. Aparentava ser um morador de rua, com roupas rasgadas, tênis muito velho e bebia uma garrafa de vinho barato, sem rótulo, no gargalo. Tinha cabelo black-power, que parecia não ser lavado há um bom tempo, fisionomia embriagada, e falava sem parar, gesticulando, prendendo a atenção dos dois estudantes entretidos.

Chegou o meu ônibus e, para a minha surpresa, era o dele também, ou o que ele decidiu pegar no momento. Sentei. Ele passou por baixo da catraca e sentou-se no banco da frente do meu. Virou para trás e começou a puxar assunto.

Não entendia direito o que ele falava, por conta de sua embriaguez. Ele não era daqueles malucos que falam coisas sem sentido, no entanto, eu só conseguia sentir o cheiro do vinho barato. Procurei prestar atenção. Ele dizia que lá embaixo (descendo a Consolação, estão os cantos da Praça Roosevelt, República, Anhangabaú) sofria muita discriminação. Parece que os outros moradores de rua, o chamam de ladrão. “A minha vontade é de matar todos que falam assim de mim. São todos invejosos”, dizia entre uma golada no vinho e outra. Ele estava irritado, mas me tratava muito bem. Sua fúria era com a vida. Eu, sem saber o que falar, pedia pra ele ficar tranquilo, manter a calma e não dar ouvidos para essas pessoas. Falei mecanicamente, sabendo que ele não iria seguir esses conselhos.

Depois, ele me perguntou se eu estudava no Mackenzie. Respondi que sim. Então ele me disse, de modo calmo e sereno, que eu nunca entenderia o que ele sente por conta disso. Deu mais um gole no vinho e continuou: “eu também sou alemão, não tá vendo?” – rindo e apontando para seu rosto negro.

Comecei a me incomodar com suas suposições a meu respeito. Eu queria conversar um pouco mais com ele, mas senti receio. E se ele começasse a se revoltar contra mim?

Decidi, portanto, interromper a conversa. Me despedi, dizendo que foi um prazer e pedi para ele seguir a vida com calma, que tudo daria certo. Senti remorso e arrependimento. Ele ainda devia ter muito para me contar, e eu, muito para ouvir. Não queria ter dado as costas para ele, milhares de pessoas já devem ter feito isso. Afinal, em nenhum momento o cara se mostrou agressivo ou perigoso. Pelo contrário, era amigável, e acredito que estava apenas procurando alguém para conversar. Ou pelo menos que lhe desse ouvidos. Com certeza, os dois jovens que conversavam com ele no ponto, fizeram isso melhor do que eu.

Mas a verdade dele tentando decifrar a minha verdade me incomodou bastante, a ponto de me fazer descer, antes mesmo da Paulista, e esperar pelo próximo Terminal Santo Amaro 669-A.


Tomara que ele não tenha percebido.